Quando é que o vermelho se torna corpo?
ALVES Aline pesquisadora e estudante de graduação em História na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH/USP). MACARI Luara artista, escritora e curadora, atualmente em formação na PUC-SP. Sua prática multimídia transita pela fotografia, pintura, desenho e gravura, explorando a percepção, o trânsito e a transposição.


Nascida em Ribeirão Preto, Luara Macari (1999) é artista visual, escritora e curadora em formação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Sua atuação no campo das artes começou por meio da fotografia, aos 21 anos, após ganhar uma câmera fotográfica de seu avô e passar a registrar os acontecimentos de seu entorno durante o período pandêmico, no Butantã, bairro da Zona Oeste da cidade de São Paulo. Neste processo, teceu uma relação íntima com o espaço e seus elementos orgânicos, de forma quase ritualística. Em 2022, passou a se dedicar à pintura, transpondo para as telas as relações marcadas por suas experiências e impressões, que emergem de seu processo criativo, fortemente influenciado pela disposição e presença de seu corpo.
Ao transitar entre diferentes linxguagens, Macari constrói um vocabulário visual que ultrapassa os limites previsíveis entre o espiritual e o intuitivo. A artista compreende a arte como uma ferramenta de leitura, assimilação e interpretação das experiências do mundo, buscando associar diferentes técnicas para construir um pensamento subjetivo e sensível sobre negritude, ancestralidade, espiritualidade, performatividade e territorialidade. Segundo a artista, sua preocupação está em expressar as temáticas e as experiências pessoais que a atravessam, buscando entender como a linguagem se manifesta através de seu corpo.
Em seus trabalhos, a artista investiga como o corpo se posiciona no momento da criação, partindo da compreensão de que a linguagem, ao ser lançada no mundo, adquire um estado de matéria. A partir disso, Macari busca traduzir esse campo subjetivo por meio de técnicas, observando seu corpo criativo e manifestando-o nas linguagens que utiliza. Esse processo, que ela denomina percepção, trânsito e transposição, caracteriza-se pela captação do que está presente no campo imaterial e sua transferência para o campo material, por meio da consciência das reações corporais envolvidas.
Sua produção evoca uma herança ancestral em que materialidade, processos e práticas estão intrinsecamente vinculados, afastando-se do predomínio da autoria sobre o objeto e suas contribuições estéticas. Trata-se de uma investigação sobre como os sentidos se manifestam entre diferentes técnicas e como o corpo responde a essas passagens. A série Tudo que nasce vermelho surgiu a partir de seus devaneios e saberes da tradição oral das religiões de matriz africana, adquiridos por meio de sonhos e conversas com entidades durante rituais religiosos. Dessa forma, sua percepção sensível, espiritual e assimilada incorpora uma epistemologia própria, que coloca a irracionalidade e a razão, a natureza e os seres humanos como equivalentes.
O conjunto desenvolveu-se a partir da tela de mesmo nome que, segundo a artista, surgiu de um ímpeto produtivo. Após pintar espontaneamente um céu e uma terra em tons de vermelho e realizar impressões de tinta com argila, a artista mostrou a obra à sua mãe de santo, que reconheceu na imagem um egungun — espírito ancestral cultuado nas tradições religiosas iorubá, conselheiro dos caminhos dos vivos a partir das experiências dos antepassados. A partir disso, Macari iniciou suas pesquisas sobre a criação do mundo nas cosmologias africanas, partindo do princípio de que tudo emerge do vermelho — como do corpo, do sangue, do impulso vital e da terra. Dentro do que é quente, também há o que é frio e finito — como a estrutura óssea, que se apresenta como vestígio da vida. A partir dessa dualidade, a artista utiliza o azul em contraste com o vermelho, explorando sua complementariedade: o azul evoca longevidade, rigidez, resistência física e espiritual. Sua pesquisa parte de uma sensibilidade despertada por essa criação, atravessada por referências religiosas.
No quadro Princípio do verso e do inverso (Figura 1), que integra esse trabalho, o vermelho guia os caminhos da artista. A cor é impetuosa, vibrante e energética; pulsa na paisagem como uma escudeira, evocando sensações e reações cognitivas associadas ao calor e à emoção. Impulsionada por Ogum — orixá masculino, guerreiro e desbravador —, Macari explora o equilíbrio entre os princípios feminino e masculino, a partir das conexões que esse orixá estabelece com entidades femininas. Na pintura, há uma apresentação dos caminhos de Ogum, marcados através de seus vestígios metálicos. Dessa forma, a artista evoca a força criadora do mundo por meio da complementariedade entre o feminino e o masculino, entre o verso e o inverso. Ao abordar a interdependência dos sexos, Macari evidência o princípio da criação a partir de diálogos e relações concomitantes, contrariando a gênese da criação oriunda do cristianismo.
Os elementos que compõem a cena resultam da interpretação subjetiva da artista sobre as formas materiais do mundo. Partindo de uma experiência que excede as possibilidades figurativas, a artista busca apresentar aquilo que está além da aparência estética. Com a inserção de elementos imprevisíveis em seus trabalhos, Macari propõe desvios de visualidade — como pela impressão de tinta com argila —, rompendo com a expectativa visual ao transfigurar a realidade à sua maneira e apropriando-se, de forma desobediente, de outras técnicas para fazer pintura. Essas escolhas de Macari desafiam as técnicas tradicionais do fazer artístico ao romper com paradigmas estéticos e temáticos eurocêntricos, valorizando narrativas e saberes de povos marginalizados, além de legitimar modos de representação simbólica não ocidentalizados. Sua produção torna-se, dessa forma, território de memória e resistência. É a partir das imperfeições e imprecisões que sua linguagem se potencializa.
Na pintura Ri Ró: rompante de rio (Figura 2), a orixá feminina das águas doces, Yewá — senhora da beleza, do encantamento, do mistério e da vidência, associada ao entardecer, aos raios do sol e à energia do arco-íris — desliza majestosamente sobre o rio vermelho. Rainha da transmutação e guardiã dos horizontes, seu elemento é a cobra, que zela pela pureza e pela materialidade do mundo com sua espada e seu arco e flecha. A partir da saudação Ri Ró, Macari homenageia a divindade das possibilidades, responsável por todas as emoções evocadas pelas manifestações artísticas.
A série Tudo que nasce vermelho está sendo exibida no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC/USP), marcando a primeira exposição individual da artista. A mostra foi selecionada pelo Edital de Exposições Temporárias 2024/2025 da instituição e permanece em cartaz de 26 de julho a 26 de outubro de 2025.
Nota editorial:
O texto de Aline Alves descreve uma obra atravessada por forças espirituais; ele abre, de modo implícito, sua dimensão invocatória. Nas obras de Luara Macari, invocar não é representar: é instaurar uma presença, reativar um campo de relações entre o visível e o invisível. Essa lógica de enunciação, comum em certas práticas afro-brasileiras (ver Lundell, 2016), remete a um modo de criação baseado em dizer, pintar ou cantar para fazer emergir o que precede e o que persiste. O vermelho, tanto na cosmogonia iorubá quanto em determinadas práticas pictóricas afro-brasileiras, remete à energia vital (axé): cor do sangue, do ferro e da terra, ele atua como princípio de circulação entre o material e o espiritual (Ayrson Heráclito, 2015).
Em Macari, essa dinâmica se condensa na superfície pictórica: o pigmento não representa o corpo, ele prolonga seu calor e sua memória. Esteticamente e simbolicamente, seu trabalho ressoa com o de Maria Lira Marques, cuja prática, enraizada no sertão de Minas Gerais, mobiliza os pigmentos naturais da terra como matéria expressiva e política. Em Marques, a cor extraída do solo torna-se suporte de memória; em Macari, o pigmento vermelho adquire uma dimensão mais encarnada — pigmento do corpo tanto quanto pigmento da terra. Em ambos os casos, a matéria estabelece um continuum entre gesto, memória e paisagem.
O vermelho, saturado e denso, testemunha uma circulação entre terra e carne: ele retém as marcas do pincel, absorve a luz e restitui o calor dos elementos. O gesto pictórico torna-se incorporado: a mão dirige-se à matéria, e a matéria, em resposta, manifesta sua presença. Pode-se pensar também na abordagem de Anna Maria Maiolino, artista que explora a corporalidade, a massa e o gesto como atualizações da presença. Na linhagem poética de uma modernidade brasileira que reivindicava a capacidade de "ingerir para transformar" (Manifesto Antropófago, 1928), Macari absorve seu legado afro-brasileiro para fazê-lo falar a partir da carne e do sangue.
É nesse limiar preciso, entre herança e encarnação, que o vermelho se torna corpo.