Dearest
Mehdi GÖRBÜZ artista nascido em 1997 em La Louvière, na Bélgica. Formado pela La Cambre (Bruxelas) e pela Beaux-Arts de Paris, sua prática multidisciplinar, que abrange escultura, vídeo e fotografia, explora a memória, o mito e os imaginários. Jaya JACOBO Jaya Jacobo é poeta, crítica, pesquisadora e dramaturga. Leciona estudos feministas e de gênero na Universidade das Filipinas, em Diliman. Trabalhou ao lado de artistas, pesquisadoras e trabalhadoras comunitárias travestis e transexuais no Brasil, bem como com artistas e performers filipinas/x/os trans, queer e não binárias, nas Filipinas e na diáspora filipina no exterior. LI Dahlia artista e escritora que trabalha no campo das poéticas feministas diaspóricas, exploradas por meio do cinema, da performance e da literatura. Atualmente, é professora assistente visitante no Programa de Estudos de Gênero e Sexualidade do Swarthmore College, onde anteriormente foi bolsista de pós-doutorado do programa Faculty Diversity.



Queridíssima Jaya,
Fico pensando, quando foi a primeira vez que você percebeu que as outras mulheres não eram como você? E quando foi que você percebeu que as outras mulheres eram como você? Pensei em você para este projeto de correspondência, no qual eu queria colocar no centro uma conversa íntima sobre o desligamento da nação e sua conscrição de gênero, porque fiquei ao mesmo tempo encantada e com inveja de uma espécie de cosmologia tropical através da qual você vive. Como é que o tropical te convida a renomear aquilo que é descrito de forma tão estreita como transgeneridade? Eu insisto que as pessoas saibam que sou trans, mas também desconfio profundamente do excepcionalismo dessa palavra. Desconfio igualmente da retórica de que “pessoas trans sempre existiram”, porque isso me parece uma retroprojeção. Conheci homens queer que me disseram que, se tivessem nascido alguns anos mais tarde, seriam mulheres trans. Temo que dizer “pessoas trans sempre existiram” prejudique as histórias deles. Temo que as formas particulares, difíceis e engenhosas que eles encontraram para viver desapareçam sob a terminologia relativamente recente de “trans” ou “não binárie”. Como doula de fim de vida, artista e etnógrafa da performance, me pergunto quais cosmologias lhes permitem viver. Enfim, me conte mais sobre você, seus tropos e seus trópicos. Quais foram os momentos significativos que moldaram esses topoi? Eles certamente ultrapassam, e antecedem, a nação.
XX,
Dahlia
Querida Dahlia,
Escrevo a você no dia seguinte a um tufão na ilha de Luzon. Quando saí da universidade naquela noite, depois da performance de uma amiga no museu, já não sentia nenhum amor pela monção, a primeira desde meu retorno da Inglaterra. Uma sensação de desagravo estava inscrita na tela acinzentada do firmamento tropical. Por fim, disse a mim mesma, o dom da lucidez enfim havia chegado até mim.
Na véspera da sua performance, uma artista e eu pegamos um jeepney de Diliman a Maginhawa e, entre conversas sobre a dramaturgia de sua obra, falamos dos riscos que corremos em nome da solidariedade, sobretudo dentro da criação trans e queer. Embora se espere de nós que tenhamos pontos em comum com as mulheres de nossa comunidade, corremos também o risco de violar a poética de nossa arte quando nos encontramos colaborando com colegas que, afinal, não compartilham da paciência que consideramos necessária para merecer a epifania de uma obra, assim como os termos de encarnação que correspondem à composição em questão.
Caminhei em direção ao museu a partir de um canto do campus onde fica minha faculdade. Todos pareciam ter fugido da chuva e a universidade parecia um lugar de desolação. E, no entanto, ao atravessar o sunken garden, não resisti à tentação de parar para me maravilhar diante da generosidade do verde… a viriditas já havia se revelado para mim alguns dias antes, numa conversa sobre Hildegard von Bingen com outra artista que havia deixado o país quase dois anos atrás para viver em outro lugar. Naquele momento, no coração da tempestade, a sensação de desagravo insistia em se fazer sentir durante minha caminhada encharcada e ventosa.
Num mundo em que me vi renegada por homens, mulheres e por todos os queers entre e além deles, eu estava só, mas nunca abandonada. Existem irmãs que permanecem fiéis às perguntas difíceis trabalhadas ao longo daquelas longas noites no quarto escuro do pensamento. Eu tenho você, e os filmes em nossas mentes, apesar dos amores que nunca retornam e também daqueles que ainda não se revelaram. Como aquela doce que você havia evocado para mim, assombrando a monção do meu desagravo: como mulher.
Com carinho,
Jaya
Queridíssima Jaya,
Você fala sobre intimidade com nossas irmãs e sobre epifanias bloqueadas pelos desejos, repúdios e projeções que nos obscurecem. Tenho sentido tantas dessas situações ultimamente, o mais surpreendente sendo dentro mesmo das minhas intimidades, quando menos espero.
Algumas cenas: uma amiga com quem já fiquei e que é uma das pessoas mais gentis e boas que conheço, tem uma filha. Pergunto-me se sou a primeira pessoa trans com quem sua filha realmente teve que interagir. A criança frequentemente me coloca no gênero errado e sinto uma distância estranha (transfóbica? Desconfiada de trans? Não seriam as duas coisas semelhantes?) que me machuca, apesar do meu desejo de ser amigável e próxima. Minha amiga ficaria horrorizada se soubesse que eu me senti assim. Sua filha certamente não aprende isso com os pais. Será a escola?
Saio com uma amiga e suas colegas, todas na casa dos vinte anos, e me sinto alienada, chocada, mas ao mesmo tempo não tanto, com o fato de algumas estarem tão abertamente fascinadas por homens e preocupadas com eles. Pessoas cis hétero tropeçam na parentalidade e no casal quase por acaso. Como intelectual e professora, fico responsável por decodificar o que não funciona na vida delas para elas e por dar a seus filhos queer (e também aos héteros) o que seus pais não puderam oferecer. Enquanto isso, desejo tanto ter um filho, mas me sinto constantemente alienada pelas formas da família normativa. Preocupo-me com o quanto meu possível filho poderia ser assediado ou arrancado de mim com tanta frequência que não consigo imaginar ser mãe. Tenho conversado com amigos queers de esquerda e sugeri que talvez um futuro compartilhado para o mundo seria que a queeridade cuidasse de sua aparente antinomia, de seus desejos e das vidas vividas sob a forma da família normativa. Estou em Londres, procurando arquivos de mulheres negras queers que talvez não puderam se revelar porque foram primeiro puxadas para serem esposas, mães e filhas. Tanto foi saqueado.
Penso que gostaria de chamar nossa troca de “Queridíssima”, porque me sinto capaz de declarar desejos a você, com você, que o mundo de outra forma pilharia. Lembro-me, durante o almoço coreano no Cubao Expo, que você falou sobre irmãs negras afro-brasileiras que te ajudaram a encontrar (ou talvez recuperar) diferentes formas de ser mulher. Adoraria saber mais.
Sua queridíssima,
Dahlia